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A criança como ponto de partida>>
O ser humano que um humano chega a ser vai se constituindo ao longo da vida humana que ele vive. (Humberto Maturana)
Todos nós começamos nossa trejatória nesta existência terrena como uma criança cheia de vitalidade e potencialidade, uma exploradora curiosa e aberta às experiências da vida. Pela plasticidade de nossa condição biológica, contudo, aquilo que nos tornamos e que expressamos ao longo da vida depende, em grande parte, das interações emocionais com nosso ambiente e com as pessoas de nossas relações primárias. Pelo fato de nós humanos vivermos em uma espaço biológico cultural, escreve Maturana em Amar e Brincar, “a relação materno-infantil tem de ser vivida no brincar, numa intimidade corporal baseada na total confiança e aceitação mútuas, e não no controle e na exigência.”
Quando uma criança é acolhida amorosamente e em sua plena corporalidade pelas pessoas responsáveis, quando ela sente que é valorizada por si mesma, sem qualquer expectativa do que possa realizar em algum futuro que ainda não está presente, ela desenvolve uma confiança plena em si mesma. “A biologia do amor é fundamental para o desenvolvimnto de todo ser humano individual”, escreve Gerda Verden-Zöllner em Amar e Brincar. Mas, pelo fato de vivermos em um contexto cultural em que corpo e mente parecem ser duas instâncias distintas, “nossa falta de confiança nos processos naturais é em especial evidente na atitude em relação ao desenvolvimento da criança, tanto em suas dimensões sociais quanto nas individuais.”
A criança em nós representa nossa inocente confiança na vida, no mundo, nas pessoas. Se pudermos crescer e nos desenvolver em um abiente seguro e amoroso, esta inocência amadurece, para fazer de nós adultos confiantes, que sabem o que fazem e porque o fazem. Além de adultos equilibrados e amorosos, permanecemos criativos e curiosos, abertos a novas experiências, capazes de vivenciar alegria e prazer.
Experiências infantis de desapontamento, abuso, negligência, provocam raiva e fazem com que nos retraiamos. Ficamos sem saber o que fazer diante das situações, sentimos que não temos valor e nossa confiança se rompe. Dependendo da intensidade da experiência, um pedaço maior ou menor da nossa confiança se quebra e recua para a sombra. Perdemos nossa inocência primordial, olhamos para o mundo e para as pessoas com desconfiança, nos tornamos mais cuidadosos na abordagem do mundo. Nossa curiosidade e vitalidade ficam reduzidas. Entramos no reino da Criança Ferida.
Todos nós já fomos crianças. Todos nós tivemos, em alguma medida e de alguma forma, uma experiência em que a confiança plena original sofreu um baque e aprendemos que nem sempre podemos confiar. Dependendo da intensidade destas experiências negativas e de nossa capacidade para superá-las, tornamo-nos pessoas desconfiadas. Mas, por mais difícil que possa ter sido este período de nossa vida, do qual talvez nos lembremos muito pouco, a chama de vida que a criança traz para o mundo não se apaga.
O tema da criança gira em torno de dependência e responsabilidade, escreve Caroline Myss, em Contratos Sagrados. Quando ferida, nossa criança não consegue confiar e se retrai, não evoluindo através da independência para a interdependência adulta. Não confiando naqueles de quem depende, desenvolve uma pseudo-independência, que não lhe permite assumir responsabilidade pelos seus atos, tornando difícil e ambígua sua convivência grupal. E nos momentos em que a criança ferida se aventura a confiar, o faz de modo ingênuo, sem discernimento. A experiência acaba confirmando e reforçando a desconfiança e o retraimento, num ciclo de retro-alimentação.
Para rompermos este ciclo vicioso, nossa criança ferida precisa de mãe. Mas, depois que nos tornamos adultos, nenhuma pessoa poderá preencher esta função, porque ninguém terá acesso à nossa criança, a não ser nós mesmos. Quando nos relacionamos com o mundo a partir da criança ferida, esperamos que alguém preencha todas as nossas necessidades, atenda a todas as nossas expectativas. Em um primeiro momento, isto até parece possível. Mas, com o tempo, o relacionamento se deteriora, porque nenhuma outra pessoa pode realizar aquilo que apenas a mãe interna pode fazer, depois que crescemos. E acabamos reproduzindo a relação insuficiente que tivemos com nossos cuidadores primeiros.
Nossa criança ferida precisa de uma mãe para crescer, mas esta mãe agora é interna, uma parte nossa que esteja disposta a cuidar de nós mesmos, a nos amar e respeitar pelo que somos. Quando começamos a nos amar incondicionalmente, a nos aceitar como somos, sem restrições, a escolher situações que reforçam nosso valor como pessoa, então ativamos nossa mãe interna e podemos começar a recuperar nossa confiança na vida. Aprendemos a confiar na nossa própria percepção, a fazer nossas próprias escolhas, a tomar nossas próprias decisões, em lugar de procurar pessoas em que possamos confiar e que o façam por nós.
E, à medida que aprendemos a confiar em nossa percepção do mundo, adquirimos discernimento suficiente para identificar até que ponto podemos confiar em uma pessoa, assumindo responsabilidade pela nossa própria vida e aceitando aquilo que os outros têm para nos oferecer. Não esperamos que alguém seja tudo, nem recuamos para o espaço em que todos sejam nada.
À medida que curamos a ferida da desconfiança, recuperamos nossa capacidade de olhar para a vida com os olhos da criança, um olhar cheio de curiosidade e promessa. Começamos a perceber as coisas belas e alegres, as possibilidades que se descortinam diante de nós a cada dia. Recuperamos nossa confiança na vida, em nós e no futuro. Começamos a mobilizar os recursos que ficaram guardados, enriquecendo nossa vida em todos os sentidos. Começamos a nos relacionar de forma mais saudável, mais amadurecida, mais satisfatória, respeitando não apenas os nossos próprios limites, mas igualmente os limites das outras pessoas.
Nos tornamos adultos que revelam uma criança saudável.
Monika von Koss em janeiro de 2010








