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Xiwangmu, a Rainha Mãe do Oeste. Corporificação do Yin Absoluto >>

No sétimo dia do sétimo mês, quando as forças cósmicas se encontram em perfeito equilíbrio e os mundos divino e humano se tocam, uma nuvem branca surge no sudoeste. Densa e grossa, ela chega e passa sobre o pátio do palácio em que impera Han Wudi. Seguem as nuvens e o sereno vespertino de nove cores. Flautas e tambores fazem estremecer o espaço vazio.

Anunciam a visita da Rainha Mãe do Oeste que, em companhia de numerosas senhoras divinas, dragões, fênix e pássaros, chega em sua carruagem de nuvens vermelhas, a cabeça envolta em sete camadas de pneuma azul, denso como nuvens. Na cintura ela traz a chibata dos Celestiais Realizados e uma espada de duplo corte, com a qual separa as fontes celestiais de luz e a energia das direções.

Um selo numinoso de diamante pende de seu cinto. Sua veste é de damasco multicolorido, com fundo amarelo; os padrões e as cores variadas são luminosas e frescas. Na cabeça porta a coroa dos Grandes Realizados, feita de nove diamantes, com contas de aurora penduradas em fitas. O cabelo forma um grande nó floreado. Nos pés, sapatos com solas quadradas de gemas róseas, ornados com a fênix.

Eis como a iconografia medieval chinesa retrata a grande deusa, oficialmente nomeada como a Regente Primordial. Seu reino é um microcosmo celeste e perfeito, localizado fora do domínio humano, no extremo oeste da extensão territorial chinesa, onde se estende a vasta cordilheira de Kunlun, o paraíso montanhoso em que Xiwangmu, a Rainha Mãe do Oeste, reina soberana.

Para alcançar este reino, um conjunto de altas montanhas que parecem penetrar o céu, seus cumes permanentemente envoltos em nuvens, com encostas descendo até os vales profundos, formando terraços e escarpas abruptas, é necessário dirigir-se a oeste e aventurar-se para além das quatro áreas selvagens e das oito extremidades, um espaço habitado por pessoas bizarras, perigos horríveis, criaturas fantásticas, plantas mágicas e impressionantes minerais. Depois de cruzar o Abismo Sem-fundo e o Reino do Silêncio Absoluto, finalmente se alcança a montanha sagrada da imortalidade, que é o eixo do mundo. Em seu palácio junto à Lagoa Turquesa, a Rainha Mãe recebe os imortais.

As origens xamânicas de Xiwangmu

Picos eretos e imponentes – o palácio da Rainha Mãe./ Abaixo há apenas a miríade de moradias dos transcendentes./ Quando ela inspira o ar para bocejar, produz o vento rodopiante./ Quando ela lava suas mãos, um grande rio desce fluente. (Han Yü)

Montanhas e rios dominam não apenas a paisagem física, mas também a paisagem simbólica chinesa. Desde o neolítico, festivais primaveris para celebrar o renascer da natureza eram realizados sempre ao sopé da montanha e às margens do rio. Jovens moças e rapazes subiam as encostas para colher orquídeas e depositá-las na água, com o intuito de afastar as influências negativas remanescentes do período invernal. Também dançavam, cantavam e copulavam, entregando-se à força geradora da vida, em íntima conexão com as forças da natureza.

Estes povos proto-chineses concebiam o mundo de uma perspectiva xamânica e sua prática espiritual era exercida pelas pessoas wu-xamãs que, por terem acesso às forças primordiais da natureza, estavam encarregadas de fazer o que fosse necessário para mantê-las em uma posição favorável à vida humana. As mulheres predominavam entre as pessoas wu, a ponto de o próprio ideograma designativo de wu representar uma mulher a serviço daquilo que não tem forma.

É deste universo cultural que se origina a divindade arcaica designada de xi mu, Mãe do Oeste. Nos ossos oraculares da dinastia Shang (1766-1122 a.e.c.) ela é emparelhada com tang mu, a Mãe do Leste, ambas divindades direcionais, conectadas com a trajetória do sol e da lua e sua influência sobre as colheitas.

Suas descrições e representações mais antigas datam do século V antes do tempo comum, quando surgiram as cem escolas de filosofia. O Clássico das Montanhas e dos Mares ressalta seus cabelos desalinhados, dentes de tigre, rabo de leopardo. Recostada em sua banqueta com um bastão na mão, ela traz na cabeça a touca sheng, uma espécie de tear feito de duas esferas ligadas por um eixo. Quando ela quebra a touca sheng, a estrutura dos cosmos que ela cria e mantém ao tecer se faz aos pedaços.

De sua origem xamânica, Xiwangmu também traz o título de “Mãe da Tartaruga Dourada”. A descrição chinesa do universo como uma terra plana, abobadada por um céu curvo, baseia-se no casco da tartaruga, com sua couraça inferior plana e couraça superior arredondada, as quatro patas formando os pilares que sustentam o céu. É sobre este cosmo que ela reina soberana, como a mãe primordial da energia do Dao.

Quando o Daoismo começa a se organizar como uma religião, no século II da era comum, a figura de Xiwangmu aglutina diferentes cultos populares e assimila as diversas funções de divindades femininas, como a de mestra, divindade direcional, espírito da montanha sagrada, tecelã divina, xamã e deusa estelar, tornando-se a mais alta divindade do panteão daoista.

O objetivo central do Daoismo é a busca da harmonia perfeita entre todos os elementos da natureza. Quem alcança esta harmonia torna-se um ser aperfeiçoado e é recebido no reino de Xiwangmu, em cujo pomar amadurecem, a cada três mil anos, os pêssegos da imortalidade.

Corporificando não apenas o Yin Absoluto, a escura força feminina, mas também o yin em relação ao yang, ela rege o casamento sagrado que cria o mundo e o mantém em equilíbrio. Seu Portal Dourado no interior da montanha sagrada é uma passagem para o útero-tumba, a tumba do tigre branco, o útero da Rainha Mãe.

Durante a dinastia Tang (618-907 e.c.), apagadas suas características selvagens e subversivas oriundas de sua origem xamânica, ela atinge sua maturidade como matriarca e mestra divina. Imagens religiosas e literárias da Rainha Mãe se tornam a trama e a urdidura de uma tessitura rica e complexa, formando a própria substância e os padrões da deusa, detalhadamente apresentada por Suzanne E. Cahill em Transcendence & Divine Passion.

Enquanto os poetas intersectam temas de culto e lenda, enfatizando sua criatividade, feminilidade, transcendência e comunicação divina, nos textos oficiais ela se torna uma figura branca, gelada, que se move com dignidade e graça. Ao ser assimilada na estrutura patriarcal imperial, ela perde qualquer função como deusa mãe primordial, para se tornar a grande mestra, que está na origem de poderosos textos e práticas daoistas, principalmente as técnicas que levam à imortalidade e que asseguram a legitimidade da dinastia e seu direito à regência.

Os muitos títulos oficiais que lhe foram conferidos como selo de aprovação governamental confirmam-na como a maior dos seres espirituais e sua regente, controlando a imortalidade e o pós-vida.

Em sua totalidade, ela exerce basicamente três funções: Como regente, ela controla a criação, a transcendência (isto é, a superação dos limites humanos como a mortalidade e a ignorância) e a paixão divina (o desejo de comunhão e comunicação entre o divino e o humano). Como mulher, ela é mãe, mestra e amante. Como a direção oeste, cujo elemento é o metal que dá nascimento à água, ela está conectada com o outono, a morte, o pós-vida e o paraíso.

Uma visita à Rainha Mãe do Oeste corresponde a uma viagem às regiões celestes, aos mundos profundos e aos confins da terra, pois a grande deusa chinesa, como todas as deusas primordiais, não apenas gera e mantém a vida, mas também reina sobre a morte. No final, todos retornarão ao paraíso da Rainha Mãe do Oeste.

Monika von Koss em fevereiro de 2010